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Histórias de Vida como Patrimônio da Humanidade

Em primeiro lugar, permitam-me dizer algumas palavras sobre como a história oral assumiu um papel diferente em etapas distintas do desenvolvimento humano. Isso porque, se voltarmos às sociedades muito antigas, aquelas anteriores à escrita e à imprensa, é claro que todo o conhecimento era transmitido de forma oral, incluindo habilidades cotidianas, trabalho, culinárias, bem como genealogia, história familiar, história oficial e literatura. Apenas como exemplo, vejamos Homero: antes de serem escritos, seus famosos poemas foram transmitidos durante 600 anos somente no “boca-a-boca”.
Depois disso veio a era da imprensa e da palavra escrita, que passaram a ser dominantes. Mas acho realmente importante lembrarmos que as formas de comunicação oral sobreviveram durante aquela época. Sobreviveram e ainda sobrevivem porque existem muitos papéis sociais importantes a serem cumpridos pelo oral.
Por exemplo, em cerimônias: nelas a parte oral geralmente é a mais importante. Quando nos casamos, o mais importante é quando dizemos para nosso futuro cônjuge que o estamos aceitando como marido ou mulher, e não quando assinamos os papéis. A parte mais importante é o oral. E o mesmo se aplica a ritos religiosos: à missa, à coroação de um rei ou uma rainha, por exemplo. Ainda consideramos necessário falar em voz alta para fazer uma transição tão importante. Acho que isso também se aplica à expressão dos sentimentos de forma mais geral. Na verdade, a expressão dos sentimentos sempre foi mais poderosa quando falada do que quando escrita. Certas áreas do conhecimento permaneceram basicamente orais, mesmo nas sociedades avançadas. Um exemplo disso seriam as histórias de família. Embora algumas famílias possam ter uma história escrita, especialmente as mais abastadas, na maioria das vezes ela é transmitida entre gerações por meio da linguagem oral.
Outro exemplo seriam as habilidades profissionais. Quando se assume um novo ofício, pode-se até fazer um curso, mas o mais importante é aprender fazendo. Vamos lá e tentamos; praticamos o trabalho e imitamos o que outras pessoas estão fazendo. Toda essa área de conhecimento não está nos livros, temos que aprendê-la observando, escutando e imitando. E, finalmente, não podemos nos esquecer do papel da memória individual, a memória daquilo que aconteceu a nós mesmos, quem somos, como foi nossa vida, quem são nossos amigos, nossas memórias com relação a nossos filhos, o que eles fizeram e o que nos disseram. Não se pode operar na vida sem essa memória; ela é a parte mais central da consciência humana ativa, e é essencialmente oral. Para nos lembrarmos dela, podemos ser auxiliados por documentos escritos, mas grande parte depende só de nossa memória oral. Sem a memória pessoal não podemos viver, não podemos ser seres humanos.
.: Paul Thompson

Matéria publicada no jornal sobre o circuito de lançamento do documentário dos Mestres Carpinteiros Navais, que já passou por São Paulo, Macapá, Sorocaba, Belém, La Paz e Buenos Aires. Pesquisa (Francisco Oliveira, Historiador, especialista em Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural do Pará, Pela UFPa Idealizador do “Museu do Mestre”), Coordenação do Projeto e Produção (Samir Raoni, pesquisador de histórias de vida do projeto de valorização do Patrimônio Material e Imaterial Nacional “Brasil Memória em Rede), Direção/Montagem, (Mateus Moura, Cineasta presidente da Associação Paraense de Jovens Críticos de Cinema)

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