Posts com Tag ‘Cadernos de Proposições para o Século XXI’

Nos tempos que correm os acontecimentos se precipitaram e as nossas categorias se tornaram pobres para entendê-los. Intolerância étnica, o 11 de setembro, a guerra no Iraque e no Afeganistão, corrida nuclear, exclusão social, enfim, sinalização de barbárie no âmbito mundial.

Como nos diz a Carta aos Candidatos, do Fórum Intermunicipal de Cultura, um “dos resultados negativos da globalização é um amplo desenraizamento que desfaz modos de vidas locais, expropria milhões de seres humanos de suas referências culturais e de suas próprias vidas. Assim, todo um processo cultural entra em decadência e, em troca, é oferecido um padrão fabricado pelo consumo, que tem na mídia um emulador permanente, pasteurizando todo e qualquer
tipo de diferença.
A este tempo que estamos vivendo deu-se o nome de pós-moderno. Nome vago, que anuncia que algo foi ultrapassado, que estamos em outro momento, embora não saibamos exatamente qual e o que isso significa. Parece ser consensual que atravessamos uma crise. Não só econômica ou social. Trata-se de algo bem maior, trata-se de uma crise civilizatória. A palavra “crise” tanto pode significar a erosão de algo construído, que entra em decadência, como o momento propício para a renovação, para a reinvenção.

No nosso caso — e aqui pensamos em uma perspectiva do Ocidente —, perdemos os paradigmas que nos davam referência. A impressão geral é pessimista. Mas não será esse apenas um dos lados
da moeda?
Eduardo Prado Coelho, pensador português contemporâneo, questiona o significado do “vazio de idéias”, que usualmente se liga à “crise de paradigmas”: “Vazio de idéias? Alguns supõem que sim. E tendem a traçar um quadro mais ou menos desolador dos tempos em que vivemos. Estaríamos sem teto e entre ruínas — para utilizarmos uma expressão
que a literatura consagrou. Segundo a perspectiva considerada mais ‘progressista’, a paisagem depois do comunismo seria a de um deserto que cresce. No limite de todos os desmantelamentos, aguarda-se, em atitude de súplica, a improbabilidade do milagre. Outros, mais conservadores, mais vinculados a uma aristocracia do espírito, vêem com verdadeiro horror os nivelamentos e banalizações de uma cultura massificada e de uma escola em incessante degradação. Outros ainda, perturbados com a “invasão de uma tecnociência que supõem acéfala, entrevêem no horizonte os sinais aterradores do niilismo e da barbárie. No entanto, através do próprio desastre, nessa perda dos astros reguladores, que todo o desastre é, alguma coisa se move que, se nos incitarmos a seguir o fio tênue desse movimento, nos poderá conceder um pouco de alegria e deslumbramento — o enigmático sorriso de um virar de século. Poder-se-á suspeitar que, quando se fala em ‘vazio de idéias’, o que se lamenta é fundamentalmente isto: não existem hoje idéias que salvem, nem idéias que fundamentem. Por outras palavras: nenhuma idéia nos assegura a salvação, nenhuma idéia é portadora de uma verdade que salve, nenhuma idéia nos dispensa de sermos nós próprios e criarmos o nosso modelo e itinerário de salvação. E ainda:
nenhuma idéia é suficientemente forte para fundamentar uma prática, para funcionar como ciência rigorosa da práxis. Sem astros que nos guiem, sem uma ciência de navegação que seja preciso apenas aplicar, avançamos agora num mar de surpresas e incertezas”.
Isso nos faz perguntar: será que as certezas que tínhamos, que se revelaram falsas, são melhores que a incerteza com a qual navegamos atualmente? Perda ou liberação? Cremos que ambas. Perda porque muita esperança se depositou no que se perdeu. Liberação porque, livres das amarras de um projeto predeterminado por pressupostos rígidos, estamos abertos a novas aventuras.
Segundo Octavio Ianni, é “no âmbito do globalismo que se institui, em uma forma nova, evidente e surpreendente, o significado da história mundial. São tantos e tais os vínculos, as acomodações, as tensões e as fragmentações que se desenvolvem em escala mundial, que já se pode falar em formação de uma sociedade civil mundial; em primórdios de um real cosmopolitismo das coisas, gentes e idéias; na constituição do globalismo como um novo e surpreendente palco da história, em termos de modos de ser e mentalidades, formas de sociabilidade e de pensamento, jogos de forças sociais e lutas de classes, guerras e revoluções; em novas modalidades de espaço e tempo; em um novo paradigma das ciências sociais, filosofia e as artes”.
Em suma, rompem-se as fronteiras de mercado, criam-se circuitos financeiros, abrem-se possibilidades de ir e vir, intensificam-se trocas comerciais, científicas e culturais. Se esse processo, por um lado, favorece uma aproximação dos povos e o estabelecimento de redes de direitos humanos e de solidariedade e propósitos de paz no mundo — além da possibilidade de construção de um verdadeiro diálogo intercultural, ainda por se formar —, traz, em contrapartida,
imensos impactos negativos sobre a vida no planeta e sobre a autodeterminação dos povos. À medida que entra em curso o declínio do Estado-nação, reforçam-se poderosas estruturas mundiais de poder.
Essa situação tem como conseqüência trágica a formação de ilhas de prosperidade e imensos oceanos de miséria, descaracterizando culturas ao impor-lhes ritmos acelerados a partir de uma tecnologia sofisticada não compatível com a condição sociocultural da maioria dos povos.
Por outro lado, como nos lembra Michel Sauquet, os problemas de injustiça social, de exclusão e de identidade cultural não estão, necessariamente, ligados à mundialização, já que são da “natureza humana, sempre confrontada com o niilismo e a barbárie”.
Vivemos em um mundo de extrema desigualdade em que coexistem alta tecnologia e analfabetismo, abundância e fome, engenharia genética e mortes por desnutrição. Na luta entre Tânatos e Eros é necessário fazer opções. Em termos simples e radicais: ou reinventamos a sociedade ou cairemos na barbárie. Os mortos do 11 de Setembro em Nova York e a fracassada invasão do Iraque já nos advertem para uma iminente barbárie da civilização.

Fonte:
Rede Mundial  Artistas em Aliança: Cadernos de Proposições para o Século XXI

Aliança por um Mundo Responsável, Plural e Solidário
Cadernos de Proposições para o Século XXI

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